4 de setembro de 2011

ÍTALA ASSIS - BRASIL



Performer, Artista visual, poeta e professora pública.  Graduada em Gravura e licenciada em Educação Artística pela Escola de Belas Artes. Concluiu o curso de extensão, com duração de dois anos, de Artes Integradas na Educação, na Escola de Artes TEAR. Recentemente foi contemplada com o Prêmio “Interações Estéticas – Residências Artísticas em Pontos de Cultura – 2010”, promovido pelo Ministério da Cultura, com o Projeto “De Onde Viemos? Quem Somos? Para Onde Vamos? - Laboratório de Artes Integradas no Assentamento de Sabiaguaba”. O projeto foi realizado no Assentamento de Sabiaguaba, litoral oeste do município de Amontada, Ceará. Atualmente, como fundadora do Movimento Cidades (in) Visíveis, faz intervenções urbanas e performances na cidade do Rio de Janeiro. O Movimento Cidades (in) Visíveis é autônomo, de organização colaborativa e democrática, fundado em 2007. Realiza arte pública utilizando diversas linguagens. O objetivo do movimento é promover performances, intervenções ou vivências com a intenção de revelar, denunciar, ironizar ou valorizar alguma característica, hábito, aspecto ou situação do território urbano, incentivando o público a elaborar um olhar crítico, político e estético sobre questões da cidade.



Relicários - Para acabar com um grande amor.



















 

FotoPoemas - Ah! Se eu fosse borboleta.








Fragmento do diário "Palavras pescadas para Sr. Leão",
iniciado em Sabiaguaba - Ceará, Brasil -  através do 
Projeto Interações Estéticas:



Século XXI, 20 de agosto de 2011.

Oi Sr, Leão. Tô tentando me controlar. Mesmo antes de você mandar. Mas isso é outra história.

O que eu quero falar é sobre a relação entre oprimido e opressor. Ou sobre a relação entre Zeus e Cronus:

            Comecemos:

“Zeus foi o filho mais novo do Titã Cronos e de Rea. A profecia dizia que, um dia, um dos filhos de Cronos lhe tomaria o lugar. Para se proteger dessa perspectiva ruim, ele decidiu destruir todos os filhos que tivesse. Durante cinco anos seguidos, Rea deu a luz filhos e filhas os quais Cronos engolia tão logo nasciam.”
            “Rea não suportava a idéia de perder todos os filhos, e, sabendo que estava grávida, fugiu para a Arcádia, onde deu a luz Zeus, dentro de uma caverna. Em seguida, nos mantos que deveriam envolver o bebê, colocou uma enorme pedra e apresentou-a a Cronos como sendo seu filho. Imediatamente Cronos engoliu-a, sem desconfiar de nada.”

            “Mais tarde, já homem, Zeus veio até seu pai, disfarçado de cozinheiro e preparou-lhe uma terrível poção, que o deixou doente. Cronos sentiu-se tão mal que começou a vomitar todos os filhos que havia engolido sãos e salvos. Da mesma forma, vomitou a pedra. Liderada por Zeus, a irmandade iniciou uma rebelião contra o pai, destronando-o e iniciando um novo sistema de governo.”.

            Sigamos:
            Segundo Paulo Freire, é através do oprimido que a transformação social se dá. O oprimido liberta a si e ao seu opressor da relação de opressão. É nele que o conflito se estabelece e se deflagra. Nenhum opressor acorda num dia benevolente e faz um trato com Deus (que é outro opressor) prometendo que daqui pra frente será um bom menino e não oprimirá mais ninguém. Aliás, os opressores, em muitos casos, nem conseguem reconhecer o lugar da opressão. Aqui vale a máxima “quem faz nunca lembra, quem sofre nunca esquece.”. Por isso cabe ao oprimido a quebra da relação. E de que forma isso se dá? Não sei.

Me dê a mão, vamos juntos entrar nesse mito:

A primeira coisa que fez a diferença na vida de Zeus, e de Cronos, e de toda a humanidade, indo pelo caminho mais óbvio, foi o fato dele (Zeus) sobreviver. Isso se deu como conseqüência de uma indignação de Rea. Ela não ficou indignada com a morte dos filhos e filhas anteriores? Não sei. Suponhamos que tenha ficado, mas que não tenha reagido. Aqui nos deparamos com um primeiro dilema: Pouco importa se ela ficou indignada ou não. A mudança não aconteceu pela indignação, mas pela ação. Por outro lado podemos supor que cada um dos filhos e filhas engolidos por Cronos engordava ainda mais a indignação de Rea. Pensando dessa forma a indignação se mostra como uma crescente pressão, chegando ao ponto de mutação, que explode em ação. E a mutação foi entregar uma pedra a Cronos (o Deus do tempo), para que Zeus ganhasse tempo e virasse homem. Mas por enquanto falamos da mutação da Rea. Semelhante à mutação da Gaia, avó de Zeus. Semelhante à qualquer mutação feminina.

É... A revolução começa no útero. O mesmo de onde sai a vida.

Mas voltemos ao mito: Feito homem, Zeus volta para servir a seu pai, como cozinheiro.  O oportuno cargo rendia a Zeus a responsabilidade de fazer uma curadoria do que Cronos iria comer ou beber. Diferente de Rea, que guardou o tempo de mutação no útero, Zeus tem plena consciência da sua história e do seu objetivo. Guarda a mutação na cabeça e na capacidade de manipulação da matéria. É um alquimista.

Arrisquemos pensar, num exercício de imaginação, nas exigências para que Zeus fosse admitido como cozinheiro de Cronos. Continuando pelo caminho mais óbvio, um bom cozinheiro deve saber cozinhar bem. E, considerando que muitos bons cozinheiros iriam querer fazer a comida do titã mais poderoso do universo, o cozinheiro de Cronos deveria saber cozinhar bem o que Cronos fosse habituado a comer, no caso, os próprios filhos. Quantos irmãos Zeus deve ter sacrificado para ganhar um lugar de confiança ao lado do seu pai? Não sei.

Sei que nesse momento chegamos ao ponto de mutação de Zeus, e de Cronos. Pela boca, Cronos traz à luz todos os filhos “mortos”. Esses, renascidos, cresceram e amadureceram dentro da escuridão do pai. Vêm a luz adultos. Aceitam a liderança de Zeus sem nenhuma inocência, afinal, já conhecem a morte. E nesse contexto os filhos e filhas depõem o pai para estabelecer um novo sistema de governo.

Arriscando mais um pouco, imaginemos o que aconteceria se, ao invés de Cronos engolir todos os filhos e filhas, ele engolisse apenas uns, mantendo outros vivos, para não despertar a indignação de Rea. Se ele fizesse isso, de alguma maneira estaria reconhecendo em Rea um risco. Percebendo em Rea um poder de mutação. Um poder com o qual ele teria que negociar para se manter no poder absoluto. Absoluto? Não sei.

Ao reconhecer o poder de Rea, imediatamente seu poder não seria mais absoluto. Paradoxalmente, ao negar o poder de Rea, Cronos determinou sua própria deposição.

É... se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.

Mas voltemos ao que realmente aconteceu no mito: Zeus, seus irmãos e irmãs depuseram Cronos. Em nenhum momento Cronos foi benevolente, poupando aquele que estava predestinado a lhe tomar o lugar. Em nenhum momento Cronos chamou Rea ou Zeus, ou qualquer um dos seus supostos adversários, de colaboradores, ou aceitou e tolerou as diferenças, ou recebeu de braços abertos a marcha dos filhos e filhas a favor do direito à sobrevivência, ou votou a favor de alguma lei que beneficiasse e protegesse seus filhos e filhas de sua própria fome de poder. A ação de Cronos que melhor colaborou com a ascensão de Zeus foi vomitar. Foi tornando seus irmãos indigestos que Zeus conseguiu trazê-los de volta à vida. Foi através de um conflito que se operou nos intestinos do opressor que o oprimido se libertou enquanto classe e libertou ao próprio opressor.

Já que estamos de mãos dadas, Sr. Leão, vamos até Londres. O que a mídia oficial chama de baderna, Darcus ...., ativista do movimento Panteras Negras, um senhor que, assim como você, já viveu muita coisa, chama de insurreição popular. Eu chamo de vômito.

Já que estamos de mãos dadas, Sr. Leão, vamos até uma dessas “ONGs” brasileiras que prometem “salvar” os pobres pretos favelados. E depois vamos até uma dessas penitenciárias que condenam, antes de qualquer julgamento, aos favelados pretos (ou quase pretos) de pobreza. Mais adiante, façamos uma visita às nossas casas de poder, que insistem em abençoar e legitimar práticas homofóbicas, pedófilas e corruptas. Cada casa com o poder que lhe cabe. Aproveitando o embalo, vamos até uma dessas tantas igrejas evangélicas, ou católicas carismáticas, que pregam, pelo Brasil inteiro, a “tolerância” e a “paz”. Terminemos nosso passeio na novela da 20:00. Ou das 21:00. Ou das 22:00. Ou das 23:00.
Pelo caminho observamos juízas, crianças, estudantes e outros pratos, homens e mulheres, sendo servidos. Qual deles irá provocar a indigestão do sistema? Não sei.
Mas desconfio de que, ao contrário dos irmãos latinos negros londrinos, que já sofrem com as dores do vômito, nós ainda estamos numa cega sucessão de venenos e antídotos.

Pronto. Agora que falei, meu amado Sr. Leão, volto a me controlar.

Xeru! Borboleta.




Link para o "Palavras Pescada para Sr. Leão"

Performance - Desrazões - Mola - Circo Voador - RJ




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